Minimalismo, declutter, psicoterapia e metas – tudo junto mas separado

Ainda sobre a discussão do meu “problema de animus”, que rendeu várias sessões de terapia (e eventualmente ainda citamos), me ocorreu num certo dia que eu sou uma pessoa cheia de boas intenções – lotada, mesmo – e vivo procurando maneiras de me transformar em alguém melhor.

Por melhor, leia: mais organizada, limpinha, produtiva – parece que deposito uma força descomunal nessa parte da vida. A parte em que tenho uma casa daquelas de revista, minimal e toda rigorosamente organizada, do mesmo modo como no passado, já quis ter um corpo rigorosamente magro e enxuto (como de fato ficou). Procurei um projetinho que substituísse o vazio que me deixou o concluir de outro.

Daí que vivo lendo sobre desafios de 30 dias sem fazer uma coisa (ou fazendo outra), sobre como transformar sua casa, seu corpo, sua vida, sua produtividade, e de Marie Kondo a sei lá mais quem, domino em teoria uma quantidade abissal de métodos. Nunca concluí nenhum, só para dar spoiler.

E falando sobre isso, A Analista me falou que parece que eu só quero concluir uma lista por concluir, e não porque ao final aquilo me transformará em algo que eu queira. Ali percebi um ponto muito importante, e comecei a tentar canalizar um pouco melhor as minhas metas.

Primeiro: eliminando metas que não fazem sentido, isso já adianta um bocado a nossa vida. Parei de procurar listas, desafios e livros pela internet e pela vida real. Não quero fazer 30 dias seguidos de nada, a não ser que eu defina isso com muita clareza para mim. Isso me fez pensar em tantas resoluções de Ano Novo com metas sem sentido, sendo que agora, me sinto muito mais alinhada com aquelas que defino.

Segundo: me focando realmente em um hábito de cada vez, sem forçar a coisas que ainda nem consegui assimilar realmente. Isso tem me ajudado a não me sentir frustrada, a não sair voando com minha mente por ideias que não façam realmente sentido – tenho me forçado a ficar bem consciente de tudo aquilo que me proponho. Assim, quando alguém me pergunta o motivo de determinada atitude, eu sei o que responder (seria cômico se não fosse trágico), e principalmente, eu sinto que sei para onde este hábito me leva.

Demorei meses, talvez anos, para perceber que tentar encaixar em mim o método criado pelas outras pessoas para as mais diversas finalidades (emagrecer, se organizar, produzir conteúdo), não iria servir, pelo simples motivo de que sou mais do que meus desejos “de superfície”, como ser mais organizada, por exemplo. Todo mundo quer isso, por razões óbvias – mas e as razões mais profundas, específicas e que te fazem saber o sentido daquilo? Você sabe as suas?

Especialmente com relação à casa, um episódio recente (recentíssimo para ser exata), me marcou e mudou um pouco: estive num congresso neste final de semana, e dormi num hotel próximo ao local, que era indicado pela organização do evento. Reservamos pela internet e fomos, e ao chegar, nos deparamos com um local que era um híbrido entre hotel e motel, como muitas cidades grandes possui.

 

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Foto que fiz para mandar pelo whatsapp, dos chinelinhos que tive de calçar no banho

O que isso significou na prática? O local era limpo, mas havia uma intensa movimentação, especialmente na parte em que eu dormi: o quarto ao lado do meu, literalmente, teve duas hospedagens diferentes na mesma noite. A primeira, me confundiu se foi um programa ou apenas alguém precisando de privacidade para uso de drogas (talvez, pelo que peguei da conversa, um pouco dos dois). Depois, chegou um casal, no meio da madrugada, e para poupar vocês, quero apenas dizer que a noite deles foi bem animada.

 

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As toalhas estavam limpas, mas esse era o estado de conservação

Já a minha, como podem imaginar, foi um verdadeiro pesadelo: além das constantes interrupções por barulho (era extremamente nítido tudo, as vozes, e o cheiro de cigarro de algum hóspede fumante), eu fiquei com um pouco de medo. Um local com fluxo tão grande de gente, pode acontecer de tudo, inclusive brigas. Não senti segurança nas trancas, nem na minha privacidade. Sempre gosto de dormir sozinha, mas naquela noite, agradeci muito por ter uma companheira de quarto, porque me passava um pouco mais de segurança.

Naquela noite interminável, muita coisa me passou pela cabeça: o receio, a ansiedade para que tudo acabasse logo (afinal, era só uma noite), as tentativas de abafar o barulho, o cansaço, e um pouco de vitimismo também, não vou negar.

Mas uma coisa que me passou bem nítida também era: nunca mais reclamo de minha casa!

Porque eu tenho uma visão muito pessimista dela, sabem? É um apartamento simples, alugado, que eu mobiliei e decorei com aquilo que ganhei de outras casas da minha família, alguns itens comprados, escolhas que fiz no passado e hoje já nem acho mais tão boas, bastante acúmulo de itens que não têm mais serventia. Com esse acúmulo, tenho dificuldade para limpar e arrumar direito, e olho para ela como quem vê um imenso problema.

Sabe aquelas meninas que têm distorção de imagem com relação ao próprio corpo, e se consideram mais gordas do que realmente são? Então, sou eu com a minha casa. Vivo considerando ela uma balbúrdia imensa, um caos estilo aqueles programas de acumuladores, e na verdade… Bem, isso não é verdade.

É logico que minha casa pode e deve ser melhorada, mais organizada, mais limpinha e aconchegante, mas não é uma casa terrível onde riscos de vida ou contaminação grave se proliferam. É só uma casa real, com muitas referências, dificuldade de priorização de uma pessoa indecisa (que sou), projetos inacabados (que sou), enfim, não é uma casa de acumuladores.

É uma casa segura, onde quando a chuva e o frio fazem barulho lá fora, me faz sentir gratidão por estar lá dentro, quando coloco algum objeto novo, me sinto feliz, onde crio a minha vida e boa parte de meu mundo. Levo as pessoas que amo, meu cãozinho vive lá (e fica aliviado ao voltar para lá depois de uma temporada fora), cozinho tudo aquilo que gosto, leio meus livros, assisto meus filmes.

E discutindo o episódio ontem na sessão com A Analista, combinamos que durante um tempo (não um tempo definido, estabelecido, mas um tempo que eu vou ter de perceber), eu vou apenas fazer a manutenção de limpeza da casa, sem me atirar em projetos de destralhamento ou de remodelar as mobílias. E também que posso anotar, aquilo que quero mudar, aquilo que quero tirar de casa, mas principalmente, aquilo de que gosto em minha casa, para poder enxerga-la como realmente é (e na analogia, enxergar quem realmente sou).

Hoje vou fazer minhas primeiras anotações, e estou ansiosa por isso!

OBS – se alguém ficou curioso, trata-se do Hotel Luar, no Tatuapé (SP).

Interpretação de sonhos, autoconhecimento e o meu arquétipo amigo

Semanas atrás, descrevia alguns sonhos recorrentes que estava tendo para minha psicóloga, quando no final da sessão, ela me disse (no meio de um monte de outras coisas) que muito provavelmente as minhas dificuldades também refletiam problemas com o meu “animus”, o arquétipo masculino na mulher.

Memorizei com facilidade aquelas palavras, fiquei balançando a cabeça enquanto ela me dizia mais um tanto de coisas, e me entreguei às pesquisas, pois havia sido uma sessão dura, na qual havíamos tocado em dificuldades minhas muito profundas. Me pareceu que aquele termo desconhecido poderia encerrar em si alguns segredos que me poupariam de ser culpada por ser quem sou.

Spoiler: isso nunca acontece. Por mais que a gente queira muito uma descoberta apoteótica que mudará a gente para sempre, e nos tornará finalmente maiores que nossas fraquezas, a maior parte do tempo é analisar com a vista nebulosa, encontrar aqui e ali uma possibilidade de resposta, se agarrar a ela durante um tempo, segui-la, e quando não for mais conveniente, seguir outra.

Mas eu tentei, não é mesmo? E vasculhei essa internet atrás de conhecimento sobre esse arquétipo, o que me rendeu de quebra, um pequeno “glossário” de termos psicanalíticos junguianos com os quais eu jamais havia tomado contato até então. Entendi melhor, primeiro de tudo, o que era um arquétipo, a questão do inconsciente e subconsciente nessa abordagem, e aí sim, fui para o meu arquétipo dominador, o Animus.

De tudo que lera, nada me chamou mais a atenção do que este texto aqui, em que a autora revisou diversas literaturas, porque o próprio Jung deixou pouca coisa sobre esse arquétipo escrita – ele mesmo reconheceu a dificuldade que seria descrevê-lo.

E ao ler, fui me identificando com inúmeras passagens: sobre os sonhos em que o Animus se manifesta (e que tive incontáveis vezes ao longo da minha vida adulta, o do tribunal de homens), e sobre diversos impulsos do inconsciente em que este Animus vai se manifestar.

Ao ler o texto, que recomendo fortemente a leitura se este assunto te parecer interessante, me vi reconhecida em momentos passados, e em alguns momentos presentes, com o meu “problema de Animus” se manifestando: o constante hábito de me remoer sobre fatos passados e presentes, a dificuldade em me sentir satisfeita com tudo (literalmente, inclusive, com a fome), a falta de definição dos propósitos mais importantes da vida, um estado de dormência a respeito do que precisa ser feito…

A mulher nesse estado, mesmo sendo extremamente detalhista, quando confrontada a respeito de seus objetivos mais profundos simplesmente não consegue defini-los. (eu todinha, neste aspecto).

E como faz pra sair dessa?

Na realidade, toda a extensa descrição deste processo (tanto o problema, como a solução) são de caráter extremamente íntimo, difícil de descrever de maneira simples. Se dá grande parte no inconsciente, dando espaço para o inconsciente também atuar, compensar uma mulher com o seu coeficiente masculino (independente de estereótipos de gênero).

No meu caso, resolver o meu “problema de Animus” passa por abandonar a necessidade de controlar aquilo que é incontrolável, permitir que minha subjetividade e minha intuição apareçam, e construir – criar coisas palpáveis. Confesso que trabalho nisso constantemente, e enfrento dificuldades constantes: tentando controlar o que não está sob controle, criando para mim mesma planos desconectados de minha verdadeira necessidade/vontade, e criando muito pouco daquilo que é tangível.

Escrever este blogue é uma tentativa de ajudar o meu Animus a se acomodar aqui dentro de maneira mais confortável no meu inconsciente. Essa postagem, mesmo, exigiu leituras e pesquisas extensas, e nem sei se fez sentido a alguém. No seu devido tempo, poderei compartilhar também como, na prática, tenho tentado estabelecer objetivos e metas adequados a isso.

Se mais alguém é psicoterapeuta, estudante ou apenas curiosa do tema, vamos conversar sobre isso? A temática é fascinante e rende muito autoconhecimento!