Como foi a minha retirada do remédio para dormir

Foto por Kristin Vogt em Pexels.com

Desde que comecei meu tratamento para depressão, passei por tantas fases que já nem sei mais em números. Mas sei, subjetivamente, que estamos numa fase bem distinta e avançada do tratamento.

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Meses atrás, meu psiquiatra me receitou um medicamento para dormir, o mundialmente famoso zolpidem. Eu passei por um período de não reparar muito no efeito, seguir com o sono leve e entrecortado pelo xixi das 4h da madrugada, e cheguei num ponto de amor insano pelo medicamento.

Você dissolve aquela pastilha com gosto de cereja debaixo da língua, e vai suavemente embalado para um sono muito reparador. Comecei a evitar a ingestão de água perto da hora de dormir, e ostentava a marca de 10h de sono todas as noites.

Meu médico é um entusiasta do zolpidem. Sempre disse que adorava que eu usasse, que é um remédio sem problemas de dependência ou abstinência (como o famoso Rivotril) e que ele me preferia dormindo bem, mesmo que com remédio. Sempre lidou com isso na maior tranquilidade.

Foto por Anna Shvets em Pexels.com

Mas no meio do caminho tinha uma pedra, e eu um belo dia, discutindo com minha psicoterapeuta as minhas rotinas (de acordar e de antes de dormir), falei que eu dormia que era uma beleza. Com o remédio.

Ela me disse, de uma maneira bem equilibrada, que isso era uma questão para eu refletir. Que se eu dormia com remédio, então não dormia que era uma beleza – na realidade, eu tinha um problema com o sono.

E no que ela me mencionou isso, eu cheguei no capítulo do meu livro de ayurveda que falava sobre o sono. E aí eu vi uma live no instagram de alguém que também mencionava (de passagem) a questão dos benzodiazepínicos e efeitos colaterais de médio prazo.

Estava feita a celeuma, e eu agora queria tirar o remédio de dormir. Comecei a me preparar psicologicamente para essa ideia, mas eu me sentia tão bem com ele! Meu médico me sugeriu a melatonina, e tentar trocar. Deixar o remédio apenas para quando de fato não conseguisse dormir.

Foto por Anna Shvets em Pexels.com

Só que eu estava num tal nível de apego que eu não suportava sequer a ideia de tentar dormir sem o remédio. Todas as noites eu dormia, acordava bem, vivia meu dia ótima, e na hora de dormir, não conseguia nem cogitar tentar dormir sem esse suporte.

Só que aos poucos, isso foi se tornando uma sensação desagradável dentro de mim. Uma sensação de derrota, de que eu não conseguia fazer algo tão simples como fechar meus olhos e dormir. De que minha força de vontade era tão mínima, que eu não conseguia nem tentar dormir sem o remédio. De que talvez eu fosse uma pessoa que jamais conseguiria ter uma vida saudável, sem a ajuda de fármacos.

Caí num filme terrível para ter assistido nesse momento, chamado Requiem For a Dream. O filme é absolutamente perturbador, e especialmente o personagem da velhinha viciada em doces, e depois em remédios para emagrecer, me deixou muito mal. O final do filme é uma das coisas mais horríveis que já assisti, e fiquei dias (além de noites) impressionada pelas cenas.

Fica o lembrete mental: a gente não se alimenta só do que come, mas também do que assiste, ouve, lê. Aquela obra, em especial, foi um erro de timing que eu cometi.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Um determinado sábado de sol, me sentindo suficientemente abastecida pelas ideias que havia lido e assistido sobre a importância de um sono adequado na nossa saúde, resolvi que iria tentar. Eu ia dormir sem remédio nenhum.

Meu intestino irritável, como se tivesse recebido uma injeção de purgante, começou imediatamente a reagir. Tive uma crise intestinal como há meses não sentia, e foi uma tarde de rainha.

Eu não conseguia entender porque estava tendo uma crise, já que eu não havia comido nada de “errado”. Só muito mais tarde, talvez dias depois, tive a clareza de que o medo de dormir sem o remédio (na verdade, o medo de não conseguir dormir sem o remédio) tinham engatilhado a crise.

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Naquela noite, mesmo com a minha obstinação toda, eu dormi ainda usando o remédio. Durante alguns dias, conversando com minha terapeuta ayurveda e também com a minha psicóloga, entendi que precisaria ficar por mais tempo apenas com a intenção de dormir sem o remédio.

Foto por Breakingpic em Pexels.com

A palavra medo, que é uma emoção imensa dentro de mim, quase tão antiga quanto eu, ganhou uma associação mais clara. Eu lembrei de um acontecimento, 24 anos atrás, no qual passei o maior medo da minha vida.

Foi uma surra que levei do meu pai, por causa de notas baixas no meu boletim da sexta série. Ele havia me “prometido”, no bimestre anterior, que caso minhas notas não melhorassem, eu iria apanhar como castigo pelas notas baixas.

As notas vieram baixas e eu apanhei, exatamente como me fora “prometido”. Só que eu havia passado os últimos meses sendo relembrada dessa promessa, admoestada, e aquilo me torturou mais do que a própria sova (que também foi bem grande, conforme o tamanho da ameaça).

Mas o medo que eu havia sentido durante todos aqueles dias anteriores ao fato, haviam feito com que eu já nem vivesse mais direito, na expectativa do que iria acontecer. Embora eu tivesse sentido uma dor física e uma humilhação intensas, na hora, eu também senti que havia sobrevivido e estava livre daquela tortura que havia sido a espera.

Foto por Markus Spiske em Pexels.com

Desde então, me habituei a sempre esperar pelo pior, a sempre imaginar o que de pior poderia acontecer comigo. E a constatar, quando algo de ruim me acontecia, que eu acabava sobrevivendo. E associei isso, erroneamente, ao ato de me preparar psicologicamente para o pior.

Exatamente como meu pai fizera naquele bimestre, me relembrando de tempos em tempos da consequência que eu conquistaria com minhas notas ruins. A iminência do castigo físico, por ser perene e demorar tanto para se concretizar, acabou sendo tão ou mais nociva do que o castigo em si.

Foto por Tirachard Kumtanom em Pexels.com

Não é o foco desse texto falar sobre o acontecimento, mas calhou de compartilhar esse parênteses aqui, da minha história pessoal, porque naqueles dias eu abri essa história para várias pessoas: minha psicoterapeuta, meu psiquiatra, meu namorado e meus melhores amigos.

A adulta que sou entende que não é racional temer aquilo que talvez nem aconteça. Mas a criança que fui, cresceu assustada, por vários episódios em que me sentia exposta ao medo de ser descoberta em falha. Meu grande medo talvez seja o de ser uma péssima pessoa, que só engana os demais, fingindo ser boa em algo.

E de que haja um grande dia, em que serei desmascarada em praça pública, pelo meu péssimo comprometimento. Assim como, aos 12 anos de idade, as minhas notas eram a prova cabal de que eu era uma fraude. Eu havia ido à aula, mas não havia aprendido. Não havia estudado ou me dedicado o suficiente, para ter o resultado esperado.

Foto por Andrea Piacquadio em Pexels.com

No caso do sono, sinal inequívoco de que você é um ser humano saudável, que opera dentro do que se espera para as noites, o meu grande medo era de não suportar os dias que viriam após noites insones.

De me tornar um zumbi que não poderia conviver com ninguém, conversar e trabalhar normalmente. De me tornar uma daquelas pessoas azedas, de constante mau humor e ainda mais disfuncional do que já sou hoje, por causa da depressão.

Foto por Andrew Neel em Pexels.com

Segui aplicando a rotina da noite, conforme me tinha sido prescrito pela terapeuta ayurveda. E numa noite em particular, estava sozinha e senti que poderia tentar adormecer sem o medicamento. Fui até mais ou menos 2h da manhã, quando acordei com os barulhos do vento e dos cachorros. Tomei meu medicamento e dormi o “resto” das horas.

Na manhã seguinte, ainda que sem ter conseguido dormir a noite toda, estava me sentindo ligeiramente vitoriosa, e fortalecida para tentar de novo.

Em três noites, estava pegando no sono sem a ajuda dos remédios, e durante alguns dias, observei incrédula esse fenômeno. Tratei como “só por hoje”, para não assustar o meu eu apegado ao medicamento.

Foto por Maria Tyutina em Pexels.com

Depois de 7 dias, comecei a chamar de normal dormir sem o medicamento. Tirei ele da minha cabeceira, onde havia deixado para conseguir dormir, caso a madrugada me pegasse. Eu uso uma dose relativamente alta de melatonina (um hormônio natural que induz o sono), para ir ajustando o eixo adequado.

Agora já fazem cerca de 30 dias desde que fiquei essa primeira noite sem o Patz. Meus horários de sono se mantiveram inalterados (eu deito cerca de 21h30 e levanto 7h), ainda que eu perceba que às vezes acordo. Tenho sonhos, e curiosamente, a “programação” dos sonhos mudou, com a saída do remédio.

Os meus hábitos ao longo do dia estão mudados, para permitir que eu possa dormir cada vez melhor: eu evito telas a partir das 21h (se possível até um pouco antes), janto sempre bem cedo e alimentos não muito pesados, uso óleo essencial de lavanda, sempre bebo chá de melissa ou capim limão ao entardecer.

Foto por Castorly Stock em Pexels.com

Também reduzi muito a dose de cafés, procurei cada vez mais colocar atividades físicas pela manhã logo ao acordar, adotei algumas técnicas respiratórias antes de dormir e logo que levantar. Estou ainda procurando a lâmpada ideal para ter um abajur suave no quarto, mas que me permita ler livros de papel antes de dormir. E paro totalmente de beber água aos montes assim que começa a escurecer, vou só dando uns golinhos no chá, para dormir de bexiga vazia.

Meu médico me disse, numa determinada consulta, que achava engraçado como eu claramente já estava andando com as pernas, mas continuava apoiada nas muletas. Nessa sessão em especial, partimos para mais uma redução no antidepressivo, que era o medicamento principal nesses meses todos de tratamento.

Eu acabei mais “viciada” (emocionalmente) no medicamento de apoio, para dormir, do que no antidepressivo de fato – esse sim, famoso por causar síndrome de descontinuidade, quando se reduz a dose!

Hoje me considero em remissão dos problemas de sono, por assim dizer. Não tenho insônia, mas ainda procuro por uma qualidade maior na restauração do corpo e da mente durante a noite. Só que consigo fazer isso sozinha, fechando meus olhos e colocando a respiração e a mente para sossegar, até dormir.

Espero poder, em breve, contar mais boas notícias como essa. 🙂

2 comentários em “Como foi a minha retirada do remédio para dormir

  1. Muito bacana seu relato, parabéns pela conquista! Já tive problemas com o rivotril, e resolvi parar por conta por viver feito um zumbi durante o dia. É dificil mas é possível, e sabe do melhor, é que os novos hábitos para o sono acabam beneficiando-nos de outras formas também!

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