Uma pandemia do lado de dentro do peito

Cada vez que eu vejo uma reportagem, texto ou postagem dizendo que a matéria irá adiantar algo sobre o futuro da pandemia, eu não consigo evitar de clicar para ler ou assistir.

Consumo vorazmente as matérias a respeito dos países que estão já afrouxando o isolamento. Tento entender como será quando for a nossa vez, aqui no Brasil. Teço conjecturas a respeito do futuro, ainda que ele seja completamente incerto.

A cada conteúdo, a mesma conclusão: não é possível ainda saber com exatidão se o plano vai ser seguido. Tudo pode ser revogado, todos os países que já estão superando o pico, podem voltar a sofrer.

A impressão é de que a gente nada, nada, e nunca chega na praia. A sensação de que fazer tudo certo é muito para mim, mas pouco para o mundo, me faz sentir uma aflição inexplicável.

Ao mesmo tempo, a minha vida particular nunca esteve tão tranquila. Simplesmente, não me incomoda a ideia de não sair de casa para nada além de trabalhar e passear com os cachorros. Comer em casa, o que for possível comprar. Não circular nem me deslocar tanto.

Ainda que me fosse concedida a possibilidade de fazer uma viagem com tudo pago nesse momento, eu não aceitaria. Acharia de um extremo mau gosto sair, consumir, circular, enquanto o mundo todo morre de medo. Talvez a gente naturalize isso a um ponto de não nos incomodar mais, como a gente acostumou a desviar os olhos de quem mora na rua.

Espero que esse dia não chegue – mesmo que me sufoque ainda mais por dentro.

Não esqueço os olhares de apreensão das meninas da recepção da clínica médica que estive no dia 23 de março, 2 dias antes do decreto da quarentena. A clínica lotada de pessoas que poderiam estar em casa, enquanto as funcionárias eram obrigadas a ir.

Adolescentes jogavam bola na pracinha em frente ao meu prédio nesse domingo. Eles não podem ir à escola, não podem passear no shopping ou ficar em bando com os amigos. Meu coração se expande, não consigo pensar mal deles.

A adolescência já é tão cheia de oscilações. Como faz para ser jovem num mundo em isolamento? Como faz para ser criança dentro de um apartamento sem sacada, de uma casa sem quintal?

Como faz para ficar em casa quem ganha por diária?

Como dorme quem tem os bolsos fundos, forrados, sabendo que ao final de tudo, terá contribuído pra matar (e não ‘só’ deixar morrer) toda uma fatia inteira da humanidade?

Suspiro. Inspiro e sinto que as minhas respirações têm sido mais curtas, parece falta de ar. Mas é que agora eu tenho sentido um pouco de ansiedade, sempre que penso em tudo isso.

Tomo um banho de água quente, faço uma aula de yoga, arrumo mais um pouco a minha casa. Abraço os dois cachorros, eles brincam comigo. Rio das suas idiossincrasias. Me alegro nas suas alegrias.

Passou a angústia – até a próxima bad, que nunca leva mais de um dia para bater.

 

 

 

 

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