Mudanças de planos (e de vida) durante a pandemia

Eu me considerava uma pessoa de hábitos simples. Não sou frugal nem minimalista, mas tampouco era perdulária, ostentava ou fazia dívidas para manter um modo de vida superior ao que posso sustentar.

Daí, com a pandemia, o isolamento social, a quarentena… eu pude ver o quanto eu ainda tinha de camadas supérfluas a cortar, sem sequer sentir a diferença.

Logo de começo, fomos para o sítio nos refugiar. Pegamos roupas “de ficar em casa”, remédios e alimentos para uma semana. Já nessa primeira mudança, as escolhas estavam drasticamente simplificadas.

Optei por comprar farinha de trigo, fermento biológico e açúcar. A ideia era fazer bolos e pães, e não usar tantos atalhos industrializados. Também de cara, abri mão dos lanchinhos que comprava habitualmente para trazer ao trabalho: barrinhas, castanhas, pasta de amendoim. Nada disso faz sentido quando você está em casa, e tem ao seu alcance comida na geladeira.

Porque eu comeria banana com proteína em pó no lanche da tarde, se a geladeira inteira estava ali disponível, e eu podia realmente matar a minha fome com um sanduíche?

Saí do meu apartamento com um sapatinho aberto(uma sandália), que seriam os meus calçados de rua. Descalcei-os assim que cheguei no sítio, e usei as havaianas até furar. Quanto às roupas, como lá o varal é ao ar livre, praticamente lavava, secava e voltava a usar no mesmo dia.

Os dias foram passando, o isolamento seguia. Os planos para 2020, que envolviam oferecer uma festa com comida e bebida para convidados, um vestido especial, e uma viagem longa e internacional no fim de tudo, foram sumariamente engavetados.

Datas, listas, conversas com agentes e cotações foram simplesmente abandonadas. Sei que isso não é nada perto de perder a vida, mas mesmo para mim, que nunca tive esse sonho, foi muito frustrante perceber que não se realizaria na data planejada.

Abandonar os planos de futuro e os rituais cotidianos foram muito importantes para entender que nada seria mais como antes.

Mas nada disso fez cair tanto a ficha quanto o Waffle. Waffle é o meu segundo cachorrinho.

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Oi, Titias

Eu sempre dizia que teria outro bichinho, depois que Bibi morresse. Eu gosto muito da energia alegre que ele espalha pela casa, nos dando amor, fazendo rir das suas corridinhas e das coisas que apronta. 16 aninhos rumo aos 17 e contando, eu tento não fazer mais planos para “quando meu cachorro morrer”.

Uma ideia que me veio com nitidez nesses dias lá no sítio, é que meu coração não iria aguentar o vazio na casa agora. Que passar pela pandemia junto com o luto do bichinho, iria ser demais para mim.

Quando fiquei sabendo da existência de Waffle (que era o Eros), me comovi pela história, mas até aí, existem tantos com histórias iguais ou até piores… Mas a foto dele, de costas, olhando o portão e esperando a tutora chegar me derreteu.

Na minha vida anterior, não “cabia” outro cachorro. Cabiam planos mais glamourosos, mais cheios de aventura, muito mais consumo – de dinheiro, sim, mas também de energia e de tempo.

Nessa vida que tenho levado agora, ter dois cachorros faz todo o sentido do mundo. As aventuras envolvem descobrir formas de fazê-lo mais feliz. Como deixar o Bibi confortável, como alimentá-los de forma tranquila. Como conduzir dois cachorrinhos no passeio com segurança.

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Pense em dois amigos que se amam!

Como fermentar adequadamente o bolo, como temperar a carne? Como transformar a refeição da família toda (incluindo meus pais) em algo que não confronte os seus gostos alimentares pessoais, nem os meus?

Como colher as ervas da horta sem que elas sejam arrancadas pela raiz? Como demonstrar às pessoas que ainda me importo com elas?

A falta das opções anteriores ao isolamento, no meu caso, abriu um monte de outras. Eu sei que vão chegar os dias das perdas irreparáveis, eu sei que eu ainda vou sentir falta do que tinha.

Mas enquanto eles ainda não chegaram, eu descubro um mundo novo de possibilidades, e até uma nova versão minha desabrocha.

Um comentário em “Mudanças de planos (e de vida) durante a pandemia

  1. Oie amiga,
    Triste saber que os planos pra celebrar sua relação serão postergados, mas vocês ainda vão desenrolar essa festa quando as condições estiverem melhores.
    Esse período de pandemia tem sido mais uma lição de desapego pra todos, eu tbm não sou consumista e tento ser até minimalista, mas reparamos o tanto de coisas extras temos quando apenas o essencial é permitido.
    E bem vindo ao Waffle! Que ele e o Bibi sejam grandes companheir@s!

    Curtido por 1 pessoa

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