Notas do isolamento

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Já tem mais de 16 dias que estou em isolamento completo. Na quarta-feira retrasada, apesar do decreto estadual impondo o isolamento, meu trabalho continuou insistindo que deveríamos ir – afinal, somos uma empresa federal, não deveríamos acatar a um decreto estadual.

Pausa para terminar de des-revirar os olhos.

Naquele dia, furiosa com tudo e até comigo mesma, fui embora. Me senti minúscula, menor do que uma formiga, mas fiz o que me pareceu o correto. Dias depois, seria autorizado o home-office… que durou só mais 2 dias.

Nesse ínterim, tinha juntado todas as minhas tralhas necessárias por 7 dias e vindo me esconder no sítio. Meu prédio tem 32 apartamentos, achei que era vizinhança demais para a gente descer duas vezes ao dia para passear com o Bibi.

A coisa foi se prolongando, com meu atestado médico de 14 dias (nesse momento, estou descartada para Corona sem teste), e portanto, tudo indica que vamos ficar aqui por mais um tempo.

Nos primeiros dias, fiz como se fosse um feriado, pois chegamos exatamente numa sexta-feira à noite. Passeamos pelo mato, fizemos comidinhas, brincamos de gravar vídeos. Foi ótimo.

Daí a semana começou, e estabeleci que iria trabalhar de casa no mesmo horário que faço quando lá. Continuou tudo ótimo.

De quarta-feira em diante, já de atestado médico, comecei a perder a vontade de manter a vida “normal”. Já não via mais muito sentido em continuar acordando no mesmo horário, e nem de praticar a minha rotina matinal – aquela que, no último post, eu disse que tão bem me fazi

Comecei a ficar entediada, brava, e a sentir uma montanha russa emocional todos os dias. Acordar positiva e otimista, ir perdendo a força de vontade pelo meio da manhã, passar a tarde sem fazer nada, de repente já era noite e tudo bem. Toma um relaxante muscular (que dá sono) e acorda mais tarde ainda no dia seguinte.

Meus escapismos tradicionais, como pensar e projetar o futuro, ficaram severamente perturbados pela instabilidade do presente. Não vejo muito sentido em todos os planos que havíamos traçado antes. Embora alguns façam mais sentido do que nunca.

Pensar que estar em quarentena num lugar digno e seguro, com dinheiro entrando na conta, são privilégios pouco contabilizados, servem de baliza para não exagerar no drama. Mas também  não resolve tudo, especialmente quando o passar dos dias escancara aquelas sombras que são tão fáceis de esconder numa rotina normal.

De repente, fica claro o quão certas condições eram idealizadas por mim. Não sinto nenhuma saudade de casa, por sinal. Estou bem sem maquiagem, sem calçado fechado, sem comparecer ao trabalho. Estou bem sem a maior parte dos meus livros, e sem os meus vidros de perfume, os quais não trouxe nenhum.

Até o meu remédio para dormir, que eventualmente acabou, não está fazendo falta. Sorte a minha, que havia providenciado a receita dos antidepressivos para dois meses, da última vez. Embora, deva confessar a vocês, que tampouco tenha tido alguma crise depressiva aqui.

Tive uma crise de ansiedade, no dia em que minha chefe me avisou via whatsapp que eu deveria retornar ao local de trabalho. Meu psiquiatra a resolveu me isolando. Foi muito categórico quanto a isso: disse que não ia me expor. Tirando esse evento externo, senti tédio, preguiça, bloqueio criativo, mas não depressão. É diferente, e é nítida a diferença.

A exposição ao sol, a possibilidade de, diariamente, cuidar da minha alimentação de forma integral, sem nenhum atalho fácil, o exercício físico moderado imposto pela rotina da vida no sítio propiciam que meu estado de espírito corresponda melhor do que a média.

No momento, deixou de fazer sentido a ideia de ir ao supermercado “ver as novidades”, outros tipos de comércio nem se fala. A saudade que sinto de ir à praia, no entanto, é brutal. Muito maior do que a vontade de sair pra comer fora, ou poder pedir um lancho – coisa que fazemos com regularidade, quando em casa.

Meu intestino irritável, por sinal, não se irritou nenhuma vez nesses 14 dias e contando. Ele funciona muito razoavelmente por aqui, em tempos de três refeições ao dia, sem boquinha nervosa no meio.

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Pratos cheios de comida de verdade.

São pequenas alegrias de um processo de cura individual, que não confortam num momento de adoecimento coletivo. Mas a vida é essa contradição ambulante: enquanto o mundo se debate com alguma questão, a gente tenta encontrar nas nossas minúsculas individualidades, algum sentido.

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Esse tem sido o meu sentido, por ora. E o seu?

 

 

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