Minimalismo digital, terapia orgástica, cura e saúde mental

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O título não faz sentido, talvez eu mude até o fim do texto. Mas vem comigo.

Podia partir do início desse mês, mas não vou tão longe: quinta-feira retrasada, antevéspera de Carnaval. Enterro da tristeza no centro da cidade, eu acabada de cansaço, só mirava o feriado. Nem fantasias tinha providenciado, logo eu. Fiquei em casa.

O plano era simples e factível: sexta-feira, na saída do trabalho, deixar o peso da semana para trás, namorar em casa, dormir até acordar. Arrumar umas poucas roupas na mochila e partir para Laguna, no nosso último feriado de praia antes do fim da temporada.

Ocorre que amanheci naquela sexta-feira com um torcicolo no pescoço tão feio e agudo, que considerei uma emergência em clínica ortopédica. Muito banho quente e bolsinhas térmicas depois, decidi ir trabalhar. Vem, feriadão.

Cada pisada no chão era um aperto na nuca.

A sexta-feira passou meio nebulosa, a semana acabou. Nem tive forças pra comemorar, cheguei em casa pisando leve por causa do torcicolo. As contas do mês ainda não tinham fechado. E já era Carnaval.

E eu já começava a achar melhor nem viajar.

Depois de fechar as contas, descansar e amanhecer, começamos a viagem. Descobri no calor da experiência que Laguna é um paraíso para amantes de som automotivo potente, que é mais evidenciado em músicas eletrônicas com muito grave. O cachorro dos meus pais quase enlouqueceu dentro de casa, torturado pelo barulho. Mas as pessoas iam e vinham alegres e com energia de festa. Achei um sinal de saúde.

No domingo, havia um bloco programado para passar na avenida da frente de casa. Com um pouco de cola de cílios e improviso, me fantasiei de unicórnio e saímos para a rua.

Meus ouvidos foram estuprados pela potência do som de alguns carros, mas conseguimos contornar o pior e chegar ao trio elétrico, que tocava alegremente os ritmos de axé dos anos 2000. Esse foi o meu pular Carnaval – umas 2h de músicas velhas e seguir o caminhão.

No final da incursão, já de banho tomado, queríamos tomar um sorvete, mas como não tinha jeito de acessar, dormimos com a vontade, deixamos para o dia seguinte – que tinha uma programação de massagem relaxante e reiki para todos os membros da família. Finalizar com um sorvete artesanal seria o coroar perfeito de um Carnaval tranquilo de um bloco só.

A gente queria ir à praia ainda na terça de Carnaval. Ou ao cinema, ou passear na ponte – mas o Universo tinha outros planos.

Depois da minha sessão de massagem, cheguei em casa um pouco enfastiada do feijão que minha mãe havia preparado no mesmo dia. Tomei uma xícara de café puro, e comi um cachinho de uvas orgânicas que lavei na água corrente.

Tentei sorrir e brincar com os cachorros, mas já estava incomodada. O revertério me incomodava e eu continuava culpando o feijão, e aí começou a saga do expurgo.

Cólicas violentas na altura quase do estômago, uma diarreia furiosa e sem precedentes me fizeram prisioneira do banheiro por umas 10 vezes no espaço de meia hora. Pela agudeza do quadro, tinha certeza que estava com intoxicação alimentar, e assim que eliminasse o alimento que me fez mal, poderia seguir a vida… Quem tem síndrome do intestino irritável, lida até que bem com esse tipo de questão.

Só que o enjoo continuava me afetando, o mal estar era intenso demais. Eu suava frio, gelado, e achei que ia explodir de calor. Deitei no chão gelado do banheiro para tentar me aliviar, e continuei passando mal.

Disso vim para um calafrio tenebroso, uma sensação febril, me enfiei embaixo do chuveiro fervendo e batia o queixo. Quando aqueci até demais, saí do chuveiro e achei que ia vomitar. Fazia o movimento e não saía nada, no entanto – só aquele impulso da garganta, e uma vontade de chorar que sempre me vem nessas horas. Com um calor absurdo, entrei no chuveiro gelado dessa vez.

Quando saí do banheiro, fraca, parecia que eu nem era desse mundo. Deitei na cama e continuei me sentindo mal, ora com frio e me tapava com cobertor, ora com calor e tirando tudo. Fiquei assim por mais de uma hora. Viajei assim dentro do carro um tempo depois.

Na manhã seguinte, tudo continuava frágil, mas pelo menos aquela sensação incômoda de dor no corpo e calafrios tinha passado. Nenhum alimento parava direito no estômago, o apetite era quase nenhum, e sobrevivendo de arroz branco com bananas, o dia foi caminhando.

No meio da tarde, esse casal que passa os dias rindo e convivendo bem explode numa briga que já entrou para o hall da fama de nossas piores brigas. Talvez tenha sido a pior, porque pela primeira vez em anos, até uma saída de casa consideramos. Chorei o oceano atlântico e o pacífico inteiro juntos naquela tarde e noite.

Soluçava e desaguava, e quando pensava que tinha chorado tudo, alguma coisa inocente me fazia chorar ainda mais. Há anos não chorava nesse volume e nessa sensação. Uma placa tectônica parecia que faria menos efeito, foi uma ruptura de barragem.

O dia seguinte foi um alívio, a vida poderia recomeçar… mas não tinha forças pra recomeçar nada. Tudo estava custando muito. Não tinha descanso nem dentro, nem fora de mim.

E também porque você não pode recomeçar do mesmo jeito, depois que te chacoalham muito. Eu queria recomeçar a vida, porém diferente.

Já tinha decidido uns dias antes que não ia mais ignorar aquela dor na coluna do começo da história, lembra? Ela ainda não passou. Comecei a procurar ajuda médica, e como sempre fui beber de minhas fontezinhas ayurvédicas e de integração entre o sofrimento mental e o físico. Lá encontrei algumas respostas, e comecei a tomar consciência.

Estava com tanta dor na coluna e incomodada com o meu piriri épico que nem percebi o quanto a depressão estava regredida. Sofri abalos externos imensos no trabalho, e nem vi que estava lutando que nem gente grande contra isso.

Hoje de manhã, em consulta com meu psiquiatra, contei a epopeia do mês, que além desse Carnaval envolveu uma terapia orgástica em São Paulo, algumas leituras sobre a influência das mídias sociais na estimulação e produção de dopamina, e algumas coisas que andei refletindo por conta.

Ele foi, ponto a ponto, me mostrando a potência de êxodo de emoções estagnadas que estavam desbloqueando através desses expurgos que tinham um fundo emocional muito forte. Minha pele, inflamada e cheia de espinhas, estava explodindo em eliminações e mais eliminações. Ele ainda brincou que, como uma cobra, eu estava trocando de pele.

Eu tinha decidido que ia cuidar melhor do ambiente interno, porque não poderia mesmo fazer nada com relação ao externo. E aí enveredei pelo caminho de aprofundar em ideias que existem, de melhorias de qualidade de vida pontuais porém efetivas.

A internet e o seu entretenimento de baixa qualidade, de Cal Newport, entraram na minha vida. Devorei o Minimalismo Digital em dois dias, porque senti que era por aí que algo em mim vinha pedindo. Eu estava implorando por um pouco mais de vida real e aterramento.

Analisei o meu tempo de uso, pelo celular, e fiquei um pouco chocada. Como eu poderia não ter torcicolos, usando desse tanto esse aparelho que mais parece uma prótese?

Lembrei do tempo em que eu era criança, mocinha, e entediada, ia ler um livro ou brincar. Falar sozinha no meu quarto. Escutar música, escrever. Quantos e quantos mundos me serviram de refúgio contra o tédio, os medos da vida, as coisas que me contrariavam.

Até hoje é assim – eu já li nove livros desde que o ano começou. Só que agora, paralelo a isso, esse entretenimento de péssima qualidade, travestido de conteúdo, me levou tempo de vida e vontade de fazer coisas embora. Me fez conectar com pessoas que não conheço, com cujas ideias não me identifico, e nem sempre consigo parar.

Estou ainda palmilhando esse caminho da desconexão. Limitei o tempo de uso e consegui me manter nele. Também comecei a, deliberadamente, deixar o aparelho longe de mim em ocasiões que me habituei a levá-lo comigo.

Repassei algumas ideias, algumas práticas que me seriam benéficas e me propus a implementar. Eu diria que mal comecei. Estou ainda, literalmente, arrumando a casa. Enfrento desconfortos diários na feitura dessa arrumação.

O que há de bacana nesse processo, é que eu estou muito disponível para ficar um pouco em contato com esse sedimento, com esse fundo – esse lodo, ou húmus, depende do que brotar daqui. E é novo esse querer patinar na lama fresca.

Oremos para que nasça uma flor de lótus!

 

2 comentários em “Minimalismo digital, terapia orgástica, cura e saúde mental

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