Notas sobre a bonança

Anteontem relatei que me sentia em crise. Hoje, eu sinto que o pior já passou e a melhora chegou – não sem antes deixar mais um dia derrubada por uma enxaqueca pavorosa, com todos os ingredientes do pior de uma crise. Dormi novamente quase que o dia todo, dopada de Naramig.

Quando esse remédio não fez efeito dentro do tempo esperado, sentindo aquele desespero que todo enxaquecoso conhece, pensei numa medida drástica e agora avaliando, descabida: pensei em tomar o relaxante muscular do bruxismo, mesmo sem estar com bruxismo, só porque ele induz o sono.

Me repreendi mentalmente – me vi rapidamente me transformando naquela pessoa que mais temo, aquela que sempre precisa de uma medicação mais potente, que mascare e apague completamente o sintoma e o incômodo. Tomei outro analgésico leve, desses que todo mundo tem em casa, e aos poucos fui melhorando.

Meu namorado, quando chegou em casa, sentenciou: dá pra ver na sua cara que você está melhorzinha! E ele nem sabia que eu tinha tido uma crise de enxaqueca. Aparentemente, é fácil para os outros perceberem as minhas alterações comportamentais.

De fato, ontem, apesar da enxaqueca, eu me sabia melhor. Eu não estava como nos dias anteriores a ela. Eu tinha um sintoma claro, definido, extremamente incômodo e incapacitante, mas eu não tinha aquela estafa. Eu tinha vontade de melhorar, tinha ímpeto de fazer o que era preciso, pensando não só no imediato (outro comprimido?), mas nas consequências (chega de comprimidos!).

É emocionante e chega a me dar vontade de chorar um pouquinho, constatar que eu sou assim. Sempre tentando pensar na melhor solução possível, nas consequências de cada escolha, naquela que representa a melhor decisão presente e futura. Eu não sabia isso sobre mim mesma, até ontem.

Porque uma das coisas que mais me encafifou, quando recebi o diagnóstico óbvio de depressão, é que eu não tinha certeza de quando isso tinha realmente começado. Eu não me acho tão diferente hoje, quanto de outras épocas da vida. Será que eu já tive depressão e não sabia? Ou será que eu sou assim mesmo, mais melancólica, menos reativa?

Não que agora eu saiba. Mas embora não seja uma diferença tão absurda, eu a pude divisar com nitidez nesses últimos dias. Eu de hoje, sentada aqui, escrevendo, produzindo, fazendo planos e até agendando compromissos, em nada se parece com a “eu” de dois dias atrás.

Sempre que leio ou vejo vídeos sobre a depressão das outras pessoas, pra mim é difícil me identificar. Parece que embora eu tenha boa parte dos mesmos ingredientes, sempre fica faltando alguma coisa. Talvez seja falta de humildade, mas sempre fica parecendo que eu não estou tão mal assim, sabem?

Isso não significa que eu esteja bem, ou que as demais pessoas estejam exagerando. É certo que existem diferentes formas de sentir e de vivenciar a doença, mas eu ainda não havia me sentido representada nas que havia visto por aí.

Escrevo para, talvez, alguém poder se sentir representado, mas principalmente, para falar a mim mesma, e registrar, como foi, até onde fui, e como voltei desse processo.

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