Notas sobre uma crise

Dois dias atrás, no final de meu expediente, eu não tinha ideia do que estava por vir. Já me sentindo meio esfolada de tanto corresponder ao trato social mínimo no ambiente de trabalho, decidi quando fui abordada pela última vez por um colega, que era hora de ir embora.

Meu planejamento havia sido passar uma hora além daquela, mas apenas para fugir, daquela conversinha que embora inofensiva, me custava todas as sinapses, eu juntei meus pertences tudo e saí quase que correndo. Sextou, alguém diria.

Em casa, ao invés da repousante sensação de jornada cumprida, aquele incômodo, aquela procura que não passa – sabe quando você não lembra mais o que entrou naquele cômodo pra buscar? Sou eu a maior parte dos meus dias em casa, após o expediente. Eu nem sei o que faço exatamente para as horas se passarem.

Num arroubo completo de animação, ainda me troco e vou para a academia, escutar música enquanto faço um treino aeróbio, que me falta a paciência necessária (e a disposição, também) para os treinos de força… Caminho, intercalo com corrida, com trote, e conforme as minhas músicas preferidas vão passando, eu vou melhorando de ânimo.

Sento no banco da praça antes de subir pra casa, mas como é sexta-feira, não é reconfortante e silencioso. Um pai divorciado me olha de um jeito nada amistoso, enquanto joga bola com o filho dele. Como se eu fosse vender alguma coisa pro menino.

Não tem explicação pra nada: só sei que a angústia vai crescendo, crescendo, e quando eu vejo, irrompi soluçando apoiada no ombro que ainda tenho a sorte de contar. Sempre me sinto entre culpada e constrangida, por não estar bem e feliz. Sempre acho que posso passar ao Universo a errônea impressão de que sou ingrata, por não dar valor às coisas boas da minha vida, aproveitando essa vida.

Ganho um jantar especial. Falto a um compromisso no qual eu veria uma pessoa de minha mais alta estima, que mora em Moscou e eu não vejo há pelo menos 4 anos. Me conforto, no entanto, pensando que choveu, que eu não estava bem, mas que no dia seguinte, estaria melhor, afinal, é sempre assim.

Até que não foi. Passo o sábado inteiro dormindo, tento me atrever a sair de casa de noite – ver mais uma pessoa, que não vejo desde 2016. Não consigo chegar no compromisso, porque minha outra amiga, a que combinou tudo, deu um perdido na gente, e eu tenho um imenso cansaço de me imaginar rodeada por desconhecidos amistosos, enquanto só conheço uma, no máximo duas pessoas dessa roda.

Acordo hoje mais cedo, sem nada de notável para relatar. Irrompe de mim outro choro sentido, menos agoniado, porém eu erroneamente acreditei ontem, que hoje então seria o dia da minha melhora. Estou esperando a melhora desde anteontem…

Certos momentos desses dias, sinto uns arroubos de animação. Me atrevo a cozinhar, isso sempre ajuda. Ouso pensar em assistir um filme no cinema (vejo outro em casa), chego a demonstrar intenção de comparecer aos compromissos sociais. Folheio livros de receita, isso é esquisito mas me acalma. Me atrevo até a bater umas fotos: da receita que preparei, das roupas que vesti. Afofo meu cãozinho que parece ter sido contagiado pela minha depressão e passou as últimas horas atirado feito um cadáver. Um gentil e carinhoso mini cadáver, sem reflexo.

Bem agora, escrevendo sobre, quase que daria pra passar por um final de semana preguiçoso, melancólico. Mas não foi assim.

Foi um final de semana pesado, exaurido, e eu sinceramente não sei se fiz as melhores escolhas. Na real, nem sei se eu tinha escolha, com o estado em que me encontrava.

Estou indo dormir esperançosa de que amanhã, o dia será melhor – mas a verdade é que eu não sei. Eu já estou esperando por isso há três dias…

2 comentários em “Notas sobre uma crise

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