Sintomas que você não deveria encarar com normalidade

Eu tenho um longo histórico de micro situações de saúde que me incomodaram ao longo dos anos, e coleciono abordagens que utilizei para elas: já fui aquela pessoa a quem todo mundo recorria em viagens, pois possuía uma farmacinha invejável, além de largo conhecimento acerca dos melhores fármacos.

Ano passado, fazendo uma pequena faxina na caixa de remédios, havia uma infinidade de anti-inflamatórios, analgésicos e outros tipos de medicamentos vencidos, e não pude deixar de sentir uma nostalgia do tempo em que eu administrava tudo com medicação.

O resultado foi que atrasei em muito o meu próprio autoconhecimento, a descoberta de quais as causas de todos aqueles micro mal-estares, e por consequência, a minha melhora.

Nesse final de semana, comi um queijo artesanal feito por uma velhinha diretamente extraída de alguma ilustração de livro infantil: sorridente, de oclinhos e redondinha, ela tem uma casa que nunca havia visto igual em vida. O queijo que ela fabrica em sua cozinha, com matéria prima do seu próprio quintal, era até molinho, de tão fresco. Cheio de furinhos, saborosíssimo…

casa de doces
Foi assim que me senti, na casa daquela senhorinha

 

Estou até hoje sofrendo as consequências de comer aquele queijo.

É fácil para mim, hoje, tendo uma base alimentar excelente, para alguns até invejável, saber que a única coisa que poderia me causar mal-estar é o queijo. Além disso, eu sou intolerante à lactose. Além disso, tenho leakygut, ou seja, jamais deveria me entregar aos açúcares deliciosos de um bom queijo fresco, ainda mais feito com leite de vaca.

Mas houve um tempo em que eu ignorava esses sintomas, considerava-os parte da vida, atribuía tudo isso à cachaça (eu bebia bastante, é verdade…), ressaca, “sou toda bichada mesmo”. E mais: 99% do meu círculo de amizades e convivência, não só era igual, como muitas vezes pior, comentava sobre sintomas extremamente incômodos, como quem comenta sobre o tempo. Sintomas o ano inteiro não é normal. E alguns são extremamente comuns, pelo menos em minha bolha.

Querem exemplos?

  • barriga inchada – sabe aquela pancinha dura, que não dobra com as suas gordurinhas? Péssimo sinal, ali tem uma sobrecarga inflamada imensa do seu trânsito gastrointestinal;
  • gases – não é exatamente regido pela ABNT, mas é muito saudável soltar apenas quando está fazendo número dois. Se você tem todos os dias, o dia inteiro, está com dificuldade para digerir os alimentos e fermentando muito;
  • azia – sabe aquela pessoa que toma omeprazol diariamente há cerca de 4 anos? Não seja essa pessoa. Além de talvez mascarar algo simples que deveria ser resolvido com um tratamento de 30-60 dias, às vezes mascara algo muito pior;
  • dor de cabeça – uma vez por semana já é rotina, não é exceção. E não, isso não acontece com quem dorme direito, come direito, e cuida de si;
  • dor de barriga (diarreia) – a diarreia é um expediente extremo do nosso corpo para se livrar de um patógeno. Com cólica ainda, aquelas que fazem a gente se dobrar, é sinal de que a guerra foi devastadora;
  • alergias respiratórias – se conformar com “eu tenho rinite” é se conformar com viver intoxicada à base de anti-histamínicos, coisa que já fiz no passado, mas estava errada. Através do modo de vida, é possível em muitos casos melhorar uns 90% (ao menos comigo foi assim, e em menos de um mês);
  • gengivites, micoses, candidíases e outros processos de fungos – começou a repetir todo mês? Pode olhar a microbiota intestinal, se tem uma coisa que fungo ama é fluconazol toda semana, vai ficando “bombado” (resistente), e a infecção aumentando…

Veja: uma vez aqui, outra ali, sei lá: umas 3x por ano, a pessoa ter ALGUM probleminha de saúde como esses acima, é até esperado. Faz parte do nosso complexo equilíbrio entre saúde e doença. A definição de saúde da OMS (de completo bem-estar físico e mental) provavelmente jamais foi alcançado por mais de 5min por um humano, porque a gente tem sim, as nossas dificuldades.

Bem diferente disso, no entanto, é a pessoa assumir para si “eu tenho enxaqueca”, “eu tenho gastrite”, e simplesmente carregar esse diagnóstico de estimação (não raro, dado numa emergência qualquer, por um clínico geral, há mais de 2-3 anos) por toda a vida. Algo que se repete todo mês, já tem um padrão preocupante. Toda semana, eu ficaria alarmada. Mas tem gente que TODOS OS DIAS sofre com algum tipo de sintoma crônico, e simplesmente administra, como se fosse parte de si.

Eu só me conformaria com isso, depois de esgotar todas as possibilidades. Nunca vou esquecer uma virose que tive, em que consultando com o gastro, mencionei que tomava omeprazol há mais de um ano, dica de um amigo. Ele deu aquele sorrisinho irônico e me disse: então você toma há um ano omeprazol, sendo que talvez tenha só uma h-pylori que se trata em 15 dias?

Fica para pensar.

Uma coisa que sempre levo, a qualquer consulta médica que vou fazer, é um pequeno histórico do sintoma: há quanto tempo, quantas vezes (por dia, por semana), o horário, o gatilho (algo que comi, sempre que acordo, antes de dormir, etc), o que já tentei, o maior detalhamento possível do sintoma (descrição da dor, localização, entre outras).

Ouço atenta e respeitosamente a opinião do médico, não questiono a conduta dele, mesmo que eu discorde, vou pra casa e faço o meu próprio dever, ou seja: pesquiso, leio a respeito, de artigos científicos a relatos com caráter meio anedótico sobre experiências pessoais e clínicas, e disso tudo é que faço um compilado e defino como vou proceder.

Raramente, o procedimento exigia medidas mais complexas do que me alimentar realmente de forma decente, praticar atividade física, fazer psicoterapia, e uma boa higiene do sono. Durante 3-4 semanas, com o apoio de algum medicamento, com essas medidas, o quadro agudo se vai, e a pessoa (em teoria) aprendeu uma lição sobre si mesma, e mantém as melhorias que fez.

Você tem algum sintoma de estimação? Que tal trocar por um animalzinho?

 

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