Intolerância à lactose: meu tratamento e mudanças de hábitos

(Estou escrevendo pelo celular – vamos ver como me saio).

Há cerca de um mês, me consultei com um gastroenterologista porque uma azia persistente me incomodava há meses. Fiz uma endoscopia, um exame clínico e o médico por desencargo pediu a curva de tolerância à lactose (aquele da pessoa ingerir a gororoba e rezar pra chegar logo no banheiro de casa).

O resultado foi taxativo: as minhas inflamações crônicas são uma constante, e agora, tinham mudado de alvo e eu estava sem digerir e absorver nada direito. (Aliás, outro dia quero contar sobre essa vida inflamada e disbiótica, a vida de quem tem doenças autoimunes em suma).

Ele me orientou alguns aspectos da azia, recomendou uma dieta (que eu deveria ver com nutricionista e não com ele), prescreveu uma dose cavalar de citoneurin até o hemograma normalizar e me disse que em poucos dias eu veria melhoras, ao retirar a lactose.

Fiquei um pouco chateada, mas confesso que tirar os laticínios foi a parte mais fácil: vi essa “proibição” com alívio, parei de consumir e não senti falta. Eu tomava iogurte caseiro que fazia todas as semanas, comia queijo diariamente e fazia brigadeiro também toda semana. Fui disso a zero sem pestanejar e sem sofrer nem um milímetro.

Experimente tirar algo que te faz mal da sua vida e me conte se não te dá o mesmo barato: depois de trocar uma dose de prazer por uma dose de bem-estar, é difícil voltar atrás. Só de pensar em leite meu esôfago arde, a aversão é implacável!

Mas isso era preventivo, e serviria para não piorar o quadro. O quadro atual já estava feio e exigiu medidas drásticas: injeções, probióticos, enzimas, suplementação e até duas pomadas. Eu não estava absorvendo os nutrientes da minha alimentação tão bonitinha, meu intestino estava jogando fora também o que eu precisava. Então eu precisava desinflamar um pouco ASAP e reconstruir minha microbiota intestinal.

As injeções de B12 são a coisa mais impressionante que já vi: no mesmo dia, horas depois, já me sentia revitalizada. Com 3 doses o hemograma normalizou e eu voltei a viver – passei meses andando sorumbática sem jamais desconfiar que pudesse me faltar algo tão elementar.

A vitamina D, cronicamente baixa, mesmo após suplementar diversas vezes e viver no sol, entrou por via oral (solução oleosa) após as injeções. Toda noite, junto com o meu probiótico manipulado com as cepas que minha nutricionista prescreveu após analisar os exames.

De manhã, ainda em jejum, eu tomo glutamina em pó, que também dá aquela moral na imunidade, um reforço importantíssimo para quem tem qualquer doença e esteja em tratamento mais agressivo. Antes de comer, tomo as enzimas em pó (não lactase, um blend específico), para me ajudar a digerir.

Pensei aqui em não contar isso aqui, mas as pomadas eram pra passar lá onde o sol não bate. Intolerantes à lactose com inflamação agravada têm um bolo fecal bem ácido, e se não cuidarem, podem até desenvolver hemorroida. Tenho certeza que vocês queriam saber isso, por isso adianto que não cheguei a esse ponto e as pomadas já foram deixadas.

Gastei uma verdadeira fábula em remédios, exames e consultas. Estou há 25 dias com o dia sendo pontuado por rituais, hora de tomar isso, hora de tomar aquilo. Evitando coisas que antes aceitava, no automático (sobremesas principalmente).

Não comprei um produto lacfree sequer: todos eles têm lactose, só que o fabricante também adiciona a enzima lactase na fórmula. Uma das coisas que aprendi nas aulas de bioquímica, no entanto é que a gente é muito mais do que “enzima x para açúcar y”. As interações metabólicas de tudo com que nos relacionamos são extremamente complexas. Além disso, por ter SOP, eu já não me dava bem com a caseína presente no leite de vaca.

Optei por seguir meu cardápio sem fazer exceções: difere em pouca coisa do que já comia, exclui totalmente os lácteos por razões óbvias, também não prevê açúcar refinado, farináceos e nenhum alimento ultraprocessado. Reintroduziu os grãos, no entanto.

E além disso tudo, falamos longamente sobre meu cansaço crônico e qualidade de sono: embora durma e acorde cedo, vinha dormindo mal. O intestino tem um papel fundamental na produção da serotonina, precursora da já famosa melatonina (o popular hormônio do sono). Sobre estresse, cortisol e outros hormônios alterados por conta de uma vida engolindo mais sapos do que deveria.

Fiquei triste por estar doente, por gastar dinheiro com tratamento, por fazer tudo tão direitinho e mesmo assim adoecer. Não achei justo que outras pessoas que não estão nem aí para sua saúde estivessem melhor que eu. Mas aí conversando você percebe que não estão: as pessoas se habituam com azia fazendo aniversário, intestino preso, dor de cabeça semanal (tem gente que toma Neosaldina todos os dias!), criam doenças de estimação com mais apego que eu tenho pelo Billy Júnior, meu lhasa apso cego e banguela de 14 anos.

Tem gente que ama mais a sua rinite de estimação do que minha mamãin me ama!

Após 3 semanas, os efeitos de todos esses reforços são palpáveis: a azia desapareceu, a disposição aumentou dramaticamente, o sono está bem melhor e aquelas pequenas mazelas de quem está inflamado sumiram (dores sem razão, garganta arranhando, tosse seca).

Fui viajar a trabalho, e acabei indo matar a saudade de BH no final de semana. Lá no mercado central, expliquei minha limitação, provei e degustei diversos queijos maturados e tive uma overdose de pão de queijo. Tudo normal, nenhum efeito colateral ou desconforto.

De volta a São Paulo, comi uma pizza na Mooca numa cantina tradicional e gracinha: tive uma noite de rainha, comprovando a teoria de que os queijos duros, amarelos e fermentados não afetam intolerantes, mas os mais frescos e branquinhos (prato e mussarela incluídos), desarranjam a alegria toda.

Já no controle da situação outra vez, mantenho os queijos para ocasiões especiais se valerem a pena. Vou concluir alguns medicamentos em 2 semanas, e ainda tomar 2 injeções, agora, mensal. Desinflamado o quadro todo, a intervenção dietética faz sentido, previne outros agravamentos, me ajuda a viver melhor!

Por fim, embora o texto esteja imenso, queria dizer que no passado já retirei glúten e lactose voluntariamente de minha alimentação e considero isso um erro. Se você não é doente, não aja como se fosse. Cuide de priorizar frutas e verduras, carnes e ovos, mas não se prive de momentos de socialização e de alimentos que te aportam um bom sentimento, embora pobres em nutrientes.

Adoro trocar ideias sobre comida, alimentos e estilo de alimentação, mas para se curar de uma doença ou atingir algum objetivo muito específico, procuro bons profissionais e detesto intromissões – especialmente aquelas que questionam as prescrições e diagnóstico dado pelos profissionais que contratei.

Além de atuar em equipes multidisciplinares de saúde como Assistente Social, tenho mestrado em saúde coletiva e o início da graduação em Nutrição, ou seja: não me falta senso crítico para reconhecer um profissional relapso. E o que mais aparece nesse meio de internet é “dicas” de quem se graduou em Instagram e caga regra no que amigos, familiares e até desconhecidos (!) fazem com suas vidas. Espero que você não seja essa pessoa. #gratiluz

Digo isso para evitar a fadiga da intromissão, mas para convidar quem quiser falar sobre isso no campo de experiências e impressões, sem prescrições, mas com diálogo. Por enquanto, mesmo sendo recente, vislumbro uma vida feliz sem lactose!

4 comentários em “Intolerância à lactose: meu tratamento e mudanças de hábitos

  1. Olá , estou na mesma situação que você, amoooo leite e derivados e para mim está sendo uma tortura evitá-los, ainda mais aqui na terra do queijo. O dia que faço a ingestão passo muito mal (azia, diarreia e muita dor abdominal), o negócio são as puladas fora da dieta que mais cedo ou mais tarde terei que me adaptar. Beijos

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    1. Nanda querida, não sei se já tentou, mas experimenta ficar nos mais maturados e curados. Aí em BH quando fui, foi super tranquilo, não tomei leite nem comi doce de leite, mas os queijos comi bem e não me senti mal!

      Beijos

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  2. Fiz uma cirugia ginecologica e tinha endometriose e retirei 15 cm do intestino delgado pq foi perfurado e de lá pra cá tive anemia , mei hábito intestinal não é o mesmo e tenho me sentindo sem animo algum .o cirurgião disse que como tinha sido um pedaço pequeno não comprometeria a nutrição , mas acho que vou fazer um ckekup pra ver essa questao e lembro que depois da cirurgia yomei injeçoes de B12 no hospital e ima cx em casa

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    1. Oi Carol! Caramba que coisa mais complicada 😦

      Acho que precisa urgente ver isso sim, eu nunca li, mas sei que deveria, um livro chamado “O Discreto Charme do Intestino”. Sei que dá uma boa noção da importância dele em diversas funções!

      Boas melhoras para você, beijos!

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